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Pedro Léo Martins / 'E aí Irmão?'

Entrevista

Pedro Léo Martins, 28 anos, foi entrevistado por email sobre seu primeiro curta-metragem. Ele apresentou "E aí, irmão?" em primeira mão, no fim do mês passado(25/07) no Multiplex Iguatemi, Salvador. O curta foi o ganhador do prêmio de roteiro(também escrito por Pedro Léo) do concurso para produção de curta-metragem em 35mm promovido pelo
Braskem (Braskem Cultura e Arte - 2005). Esse curta é o primeiro trabalho em 35mm de um realizador que fez o curso de Cinema e Vídeo da FTC. Na entrevista, fala desde a pré produção do filme até sua exibição.
"E aí, irmão?" tem 20 minutos de duração e trata da repercussão social da proibição, do uso e do tráfico da maconha. Segundo Pedro Léo, a obra não tem por objetivo fazer apologia ao uso da maconha ou realizar julgamentos. Sua idéia é propiciar uma reflexão sobre o assunto.

Cesar Fernando de Oliveira - Para começar queria parabenizá-lo pelo filme e pela exibição, onde tivemos duas sessões lotadas e com grande cartaz do filme. Você bancou a divulgação ou teve apoio/assessoria do Braskem?

Pedro Léo Martins - Bom... A Braskem fez uma assessoria com jornais e o Banner. De ultima hora Marcos Pierry e Adriana Telles deram uma rápida colaboração e foi divulgado em outros jornais e na TV Aratu. A FTC me deu alguns cartazes em cima da hora e assim aconteceu... Tivemos três sessões no Multiplex Iguatemi...Mas eu não banquei nada, não tinha mais dinheiro.

CFO - Antes da exibição no Multiplex Iguatemi você afirmou ter feito o filme com uma proposta de "desmorrização" da maconha, numa tentativa de discutir sobre o tema de fora do morro, mas o que mais permanece ao acabar o filme é que o ciclo da maconha continua, num círculo vicioso onde a pergunta final se une ao título, como num 'loop', sempre voltando ao início. Gostaria que você falasse mais sobre o ponto central do filme.

PLM - O ponto central do filme é mostrar os envolvidos e os envolvimentos das pessoas com a droga. O traficante, os jovens, o morro. Dividir por partes, núcleos, como essa coisa se organiza e se mantém em uma sociedade que não reage, não tem opinião e empurra o assunto com a barriga através de uma repressão estranha, onde a maioria dos envolvidos são os próprios repressores. O nosso pais é refém de traficantes poderosos, organizações bem sucedidas que estão em todos os cargos, que estão por toda parte. É cada vez mais normal a presença da droga na sociedade. Em toda roda de amigos existem usuários, ela esta em toda parte e alguém está ganhando muito com isso. Qual é o problema da Legalização? É pagar imposto? É ter menos lucro? O mundo da propina vai perder? Qual é o individuo que não sabe que ali na esquina vende? Ali mesmo, perto do posto policial! Não falo só da maconha, a maconha é a menos impactante, por isso foi escolhida. Mas eu estou falando da droga ilícita, de seu mundo e mostrando parte dele. A parte onde se encontra o usuário, dentro de um trafico de região, onde a droga vai penetrando por partes e é distribuída. Que é a mesma forma, em proporções maiores de corrupção e coação, "degrais" acima. Eu falo de quem fuma e de quem faz a pequena distribuição, geralmente, quem sofre alguma conseqüência. O fantasma nunca aparece, só em época propicia, e a gente nunca vê o rosto nem ouve falar. Salvo Beira Mar e o cara do PCC, que o Pais não consegue segurar. É muito vergonhoso, um cara desse "dá testa" com as Policias do País, manda matar um monte de gente e ninguém segura, se fosse um Tião (o traficante do morro no filme), ou um Neto (traficante que traz para o morro no filme) já tava morto e enterrado, não que eu seja a favor disso. Qual é o poder de um cara desses? O que sustenta tanta autoridade?
Quis falar um pouco também do usuário, tirar carapaças e estereótipos. O que as mídias passam é que não existe Bom-conheiro só Má-conheiro, o cara sempre é mau-caráter, nunca alguém respeitável ou confiável. No filme eu mostro alguém como outro qualquer. Acho que o caminho para uma conscientização é falar a verdade e encarar fatos, jogar as cartas na mesa. Mas esse não é o interesse. Quando em uma novela da Globo existir um usuário gente boa, vai ser fácil a sociedade aceitar. Acho que a única forma de desarticular toda essa rede, essa teia, essa violência é legalizando, não tem mais jeito. Acho que o nosso País está pronto para a legalização da Maconha, não causaria danos. Já as outras drogas, o País precisa de um preparo, de um trabalho sério e honesto. De tudo que a gente já está careca de saber.
Sobre o loop que você se refere, eu não o vejo. O que vejo é uma história que continua, nada volta ao início, não tem início e não tem fim.

CFO - Seu filme é composto por mais de 20 personagens e possui tramas entrelaçadas, um mosaico de experiências onde a maconha é o tema central. Uma das coisas que mais me chamou atenção foi a interpretação no conjunto, que mesmo tendo uma quantidade grande de atores não perdeu a verossimilhança, fale um pouco do trabalho com os atores e de toda a produção, principalmente a finalização em 35mm.

PLM - Meu trabalho com os atores começou seis meses antes do prêmio, eu e minha mulher fizemos alguns testes com atores em minha casa e reuniões na Escola de Teatro da UFBA, uma coisa bem precária onde eu não contava com nenhum apoio financeiro e não prometia nada a ninguém. Eu estava querendo fazer a energia girar, tomar corpo. Neste período passaram mais de 50 pessoas por minha casa, das quais permaneceram no elenco final Iara Castro, AC Costa e Franclin Rocha. Quando o premio chegou, uma estrutura pode ser formada e veio o apoio da Companhia de Patifaria que nos cedeu uma sala para os testes. Chamei para trabalhar comigo Fernanda Paquelet, que se interessou e começou a divulgar que havia um teste para um curta, fomos realizado testes, foram mais de 200 pessoas. Os testes giravam em torno do improviso, dentro do contexto do filme, onde se buscava atores que conseguissem se livrar do exagero teatral, pessoas que se permitiam trabalhar e claro, que se parecessem com as personagem. Isso durou um mês. Depois com a equipe formada dediquei dois meses para ensaios em grupo e individuais. Onde fomos descascando aos poucos até chegar ao ponto. Foi um trabalho muito gostoso. Era muito bom escavar o ator até ele encontrar e encarnar a personagem.
Enquanto isso, estávamos procurando as locações pela cidade, tentando encontrar apoios para alimentação, equipamentos, transporte e segurança. E em casa eu desenhava todas as angulações de câmera, enquadramentos e movimentações na planta baixa das locações, planejando e fazendo os ajustes finais, vendo figurinos, objetos de cena, estas coisas. Tudo pronto, uma semana de descanso a todos, uma festa para toda a equipe se conhecer, com o apoio do "Ao Léo bar" que bancou tudo para 53 pessoas. Todo mundo feliz e ansioso partimos para 12 dias de filmagens.
No processo de finalização estávamos com pouca grana e recebemos apoios da DOCDOMA e do CTAV, no tratamento da imagem conseguimos descontos na LABOCINE e quem cuidou do transfer foi Daniel Leite, um cara do RJ com quem espero nunca mais trabalhar. Apesar de ninguém notar durante a projeção, a película esta com um defeito grave no lado esquerdo existe uma interferência magnética, quando descobrimos isso ligamos para ele e o cara se negou a refazer o negativo para a estréia, afirmando que tinha muito trabalho a fazer, sorte que no Multiplex ficou quase imperceptível, mas numa projeção de menor qualidade a coisa fica gritante. Outra merda que o cara fez foi apagar o arquivo digital do filme, ele apagou o arquivo tratado, eu não tenho o filme digital em alta resolução, com tratamento de som e imagem graças a essa proeza dele. Agora estamos brigando para que ele assuma e refaça tudo.
Bem... como eu estava dizendo, estávamos com o orçamento baixo o que impossibilitou a minha ida no RJ durante para a finalização da imagem. Então tive que conversar com Pedro Semanovski aqui para ele realizar lá sem a minha presença, o que não foi difícil, pois desde o começo Pedrinho foi um cara totalmente ligado ao processo, sabia exatamente onde eu queria chegar e realizou tudo muito bem. Eu estava mais preocupado com o tratamento e ajustes do som e escolhi ir pro RJ nessa etapa. O processo foi realizado no CTAV junto com Kiko da DOCDOMA, com o auxilio de Araripe que cedeu sua residência, onde ficamos hospedados durante todo o tempo.
Uma coisa que eu queria chamar a atenção é que praticamente toda a equipe envolvida no filme foi investidora, pois o cachê em geral foi apenas simbólico.

CFO - A gravação foi em digital e a camera na mão está presente em todo o filme, assim como planos curtos, rápidos e de angulações variadas, o que me pareceu mais como uma busca do que uma proposta de linguagem. Gostaria que falasse sobre a forma do filme e as referências cinematográficas da obra.

PLM - Bem... como eu falei na resposta anterior a linguagem estava toda estudada em desenhos e observações. O roteiro pedia uma dinâmica muito forte por ter muitos detalhes e muitos personagens, cenas com muitas ações a serem mostradas ao mesmo tempo, de perto, buscando um realismo. Eram 23 personagens e 18 locações para 20 minutos de filme com créditos, ou seja, menos de um minuto para cada personagem. Em Alguns momentos no filme o off não se relaciona com a imagem são coisas separadas, acho que apenas isso é uma novidade que experimentei, acho que temos a capacidade de assimilar duas coisas, que não se ligam diretamente, mas que estão dentro do mesmo conteúdo, ao mesmo tempo, isso funcionou mais-ou-menos, sempre que alguém tem uma duvida quanto ao desfecho ela está dentro dessa parte. Eu tinha que aproveitar ao máximo o tempo, o filme está o tempo todo dentro da historia sem contemplações tudo está "na lata", de forma direta. A linguagem se construiu harmoniosamente e anteriormente à filmagem. Durante a criação quis me libertar de tudo, quis ficar o mais livre possível para perceber a melhor forma de contar a historia sem me preocupar se seria uma proposta nova ou não, seguindo apenas as necessidades. Queria realizar da melhor forma possível dentro de uma realidade financeira. E o que percebi é que era chão, corpo-a-corpo, câmera na mão - Se dinheiro não fosse problema eu arriscaria mais. A câmera seria uma coisa flutuante - Claro que referências sempre existem, mesmo que escondidas no subconsciente.

CFO - Como você está vendo o mercado audiovisual com relação a exibição de curtas e quais suas propostas para exibição de "E aí, irmão"? Quais seus projetos futuros e expectativas?

PLM - Meu acesso a curtas é via internet, festivais, mostras e salas de arte. Acho ruim realizar um filme e não ter espaço para expor, mesmo filmes premiados têm dificuldades para uma projeção em cinemas. Onde realmente o curta ganha publico é na internet.
Por enquanto não estou pensando em exibições de "E aí, irmão?", nesse momento quero tentar participar de todos os festivais possíveis para ele. Quando acabar este circuito veremos o que acontece.
Idéias... projetos existem muitos, uns estão nas gavetas, outros por ai em editais.
Um projeto de documentário foi aprovado agora pelo Minc e pela Funarte. Até o final do ano estaremos com a mão na massa em um media-metragem. Não quero entrar em detalhes agora, deixa a coisa rolar por inteiro.
A expectativa é que essa maquina a vapor não pare, que ganhe cada vez mais embalo, derrame seu tapete de trilhos por ai e vá se transformando em uma fortaleza indomada. Que o artista ganhe, realmente, sua liberdade justa, para falar, gritar, expor suas idéias, suas criticas, suas inquietações, transbordar seus sonhos, suas paixões. E que esse trem um dia voe.

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“O Anjo Daltônico” (2005) de Fábio Rocha, foi o primeiro curta-metragem gerado pelo concurso de roteiros do Braskem Cultura e Arte em 2004.

Ótima iniciativa, César. Bom saber como nossos colegas estão produzindo. Parabéns aos dois. :)

concordo totalmente com michelle! que bom! que entrevista legal. grande iniciativa. sinto coisas acontecendo em salvador.
bjus
Iris

Brigadão Michelle e Iris.
Avante colegas!

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