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CACHÉ



Michael Haneke, Caché.
França/Áustria/Alemanha/Itália, 2005

Imagem e palavras

Ao sair da sessão de Caché eu afirmava, “esse filme aponta para um Cinema do futuro”, algumas pessoas me olharam como se não entendessem o que eu havia acabado de dizer ou não acreditassem na afirmação, já que muitas saiam da sala com rostos desgostosos. Com certeza não é um filme que agradará o público em geral, há uma exigência emocional e intelectual que está longe da passividade provocada pelo domínio do cinema narrativo clássico, além da proposta criada pelo diretor onde o espectador precisa completar as lacunas deixadas abertas no filme. Assim, aqui vai minha análise.

Caché é um filme sobre palavras, sobre palavras que não são ditas. E sua maior capacidade está em usar a imagem da melhor maneira possível para mostrar isso. Stanley Kubrick afirmava que todos os filmes já haviam sido feitos, que a função do cineasta seria tentar buscar algo novo, ou pelo menos fazer diferente. Haneke parece ter ido fundo nessa proposta, e faz um filme onde imagens tem grande plasticidade e caráter de subconsciente, e palavras que dizem mais do que elas significam. O diretor está experimentando e jogando com o Cinema, o maior exemplo disso é a capacidade de nos manipular através da cena que está sendo mostrada e o diálogo que acontece junto com a imagem.

Ao iniciar o filme já temos um diferencial, há um longuíssimo plano fixo da fachada de uma casa e os créditos vão aparecendo sobrepostos nessa imagem, sendo que um após o outro como que enchendo a página de um livro. Após todos os créditos impressos eles se apagam e a imagem permanece, e permanece... Durando mais que o “necessário”, e só depois de um período percebemos que é uma gravação dentro do filme . Há a extrapolação do caráter descritivo da imagem, e o fato de durar mais, gera um novo conceito. Imagens que nos acompanham, remetendo a lembranças.

A história do filme é a seguinte, um casal passa a ser atormentado com fitas possuindo imagens de sua casa deixadas na porta, embrulhada em desenhos estranhos. Cada vez essas imagens vão se tornando mais intimas. Georges Laurent é um apresentador de programa de TV e sua mulher Anne Laurent uma escritora, moram com seu filho adolescente Pierrot.

Ao utilizar do fato de imagens gravadas em video-tape fazerem parte da história, o diretor pôde explora-las ao seu prazer, inserindo quando quisesse na narrativa sem nos comunicar que ali tratava-se de uma cena gravada pelo observador misterioso, somente nos explicando depois de um período através dos diálogos. E pra reforçar isso, ele utiliza da plasticidade própria da imagem pra se auto denunciar, quando mostra o programa de TV que Georges trabalha ou telejornais preenchendo toda a tela mas com qualidade técnica inferior. Dessa forma o espectador é arrebatado pelo filme, como que puxado pelo diretor a embarcar em sua viagem, muitas vezes sendo pego de surpresas.

Após esse arroubo técnico-criativo o filme passa a demonstrar que seu tema é muito mais amplo do que parecia, e o thriller que a sinopse indicava dá lugar para um forte caráter psicológico. O foco que ficaria na descoberta do observador que envia as fitas passa para a dissecação das personalidades dos personagens vigiados, já que cada vez mais penetramos no íntimo deles e percebemos como a falta de comunicação pode impedir a felicidade, a paz e até o amor.

No primeiro diálogo do filme indica-se um fato , “como ele estava tão perto e eu não percebia”, Georges conversa com Anne sobre a gravação dele chegando em casa enviada pelo observador. Essa frase serve também para demonstrar o impasse que acontece com o casal devido a dificuldade de se ter uma conversa franca, George tem dificuldade em contar seus problemas, de falar sobre seus medos e angustias. E isso gera uma desconfiança tremenda para Anne, que não o entende, já que sua personalidade é o oposto disso, é mais aberta e prática. Enquanto ele esconde, ela mostra. A chegada das fitas resulta num desencadeamento de incertezas, já que em alguns momentos enquanto Georges mente para Anne a imagem gravada o desmente.

"A dor compartilhada é mais fácil de carregar"

Caché aponta para um cinema do futuro porque traz novidades para o universo cinematográfico. Experimentações a respeito da imagem e seus conceitos, maior interatividade entre o espectador e a obra, além de sutilezas tão distantes hoje em dia do dito “cinemão”. Assim, Haneke constrói seu filme através desses detalhes, metáforas, e nos faz pensar, cobra-nos ajuda para desvendar os mistérios do ser humano. Um exemplo disso é o estúdio do programa de Georges e sua casa, ambos possuem uma sala onde a parede é formada por vários livros enfileirados, isso entra em choque com sua personalidade, ele é um apresentador de TV, gera e vive arrodeado de informação, mas não consegue comunicar claramente seus sentimentos com sua esposa ou seu filho.

A incomunicabilidade surge na conversa familiar e atinge seu ponto máximo na intransigência de Georges com os Argelinos. Majid é o passado que Georges não quer relembrar mas que está sempre presente para ele através de sonhos, o oposto também acontece com Majid, só que através da TV. Existe uma relação muito forte entre os dois sem precisar do encontro físico, que se dá 50 anos depois de uma separação traumática. É pra onde apontam as imagens que duram, a lembrança personificada.

A falta de tempo e palavras são elementos que permeiam todo o filme. A imagem síntese disso é demonstrada quando na discussão familiar sobre o desaparecimento de Pierrot, entre Georges e Anne a TV auncia os acontecimentos na Palestina, onde a intolerância e falta diálogo é conhecida em todo o mundo. Haneke aponta alí que o problema é maior, a família do filme é uma referência pra que se discuta a questão da intolerância em toda a sociedade. O diretor pontua o filme com essas questões, como no exemplo da discussão de Georges com um ciclista negro, ambos estão errados, mas nenhum dos dois cedem. Não é a toa que o choro é outro elemento marcante, os personagens dificilmente sorriem, há uma grande carga de ressentimento e mágoas. Esperam estar sozinhos pra colocarem esses sentimentos pra fora. A solidão reina em alguns momentos.

Há também o uso de artimanhas para nos confundir, como algumas inserções rápidas da imagem de Georges quando criança em momentos distintos do filme - a imagem e sua pseudo imagem - resultado do subconsciente de George aflorando, mesmo sem sabermos que trata-se dele, só depois o diretor nos explica quando mostra a infância de George através de seus sonhos. Ou então os desenhos enviados com as fitas pelo observador misterioso, ligações diretas com o que aconteceu ou acontecerá com alguns personagens mas que não tem clara explicação na diegese, funcionando mais como referencia imagética para o espectador do que como prova criminalista.

Mesmo nos momentos em que o filme discute a infância, nas conversas entre mães e filhos, tanto a de George com sua mãe ou entre Anne e Pierrot, percebemos que o objetivo é demarcar ainda mais a questão da falta de palavras. George não se abre com sua mãe, a dificuldade de conversar sobre sentimentos é mais velha do que parece. Já Pierrot cobra da mãe informações sobre o refúgio que ela cria no amigo, mas ela não consegue explica-lo e a situação piora. Anne tenta o carinho, o amor surge pela primeira e única vez no filme através de palavras, mas carece de sentimentos, é ouvido mas parece não ser compreendido.

Não só a criança, mas todo ser humano tem a capacidade de fantasiar quando não fala sobre algo. Isso nos remete a imagem final do filme, a saída da escola sem o garoto, e logo antes a imagem de Majid sendo expulso da casa da família de Georges. Como se o diretor dissesse: Onde está Pierrot? Uma indicação de que os problemas devem ser discutidos no início. Quando isso não acontece, eles atrapalham nossa visão, além de bloquear nossas palavras.

Com Daniel Auteil, Juliette Binoche, Maurice Bénichou, Annie Girardot, Lester Make donsky, Danie Durval, Walid Afkir, Nathalie Richard, Bernard Le Coq.

Anda nao vi, mas, se for como ve esta dizendo mesmo quero logo ir vê-lo!!!!!!!!

Precisamos discutir este final. Vou tentar rever o filme esta semana.

Márcio, não deixe mesmo de ver. O filme é um quebra cabeças, e algumas peças talvez só estejam com vc.
Chico, também quero rever, e tvz mudar toda a opinião de antes fazendo outro texto para a segunda sessão.
;)

Caro césar,
Legal teu texto. Acredito ser este o melhor filme do Haneke. O projeto cinematográfico dele atinge seu ápice de manipulação. Mas tenho uma série de ressalvas. Primeiro, o malcaratismo de Haneke para com os personagens. Segundo, acho bem simplista e frágil a associação do "erro" de Laurent na infância e a questão frança/argélia. enifm...
Gostaria de te convidar a conhecer meu recem criado blog:
http://www.cinekinos.blogspot.com/

Júlio, com relação a Haneke, eu só assisti a três filmes dele, ‘A Professora de piano’, ‘Funny Games’ e 'Caché'. Desses três, pra mim, o melhor tb é o último. Sendo que os três são excelentes criticamente.
Quanto a questão do ‘malcaratismo’ do diretor quanto aos personagens que citou, acho que questões relativas a moral devem ser aplicadas em toda obra, não em personagens isolados.
O que achei mais forçado foi o embate com o ciclista negro, "o palco já estava armado", já tínhamos compreendido o que ele queria antes da discussão. Talvez tenha deixado a cena pra aumentar a tensão, sei lá...

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Cesar Fernando de Oliveira

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