segunda-feira, junho 27, 2005

O Guia do Mochileiro das Galáxias


Garth Jennings, The Hitchhiker's Guide to the Galaxy, EUA, 2005.

“É um fato importante e conhecido que as coisas nem sempre são o que parecem. Por exemplo, na terra o homem sempre se considerou a espécie mais inteligente em vez da terceira mais inteligente”. Com essa frase o narrador inicia O Guia do Mochileiro das Galáxias e já serve também para situar-nos de que mesmo se tratando de um filme de ficção científica você não deixará de ver comédia, sátira e filosofia. Baseado no livro de Douglas Adams, que também é co-roteirista e com direção de Garth Jennings, que faz sua estréia em longa-metragem depois de trabalhar em vídeo clipes de diversas bandas famosas, O Guia do Mochileiro das Galáxias é a primeira adaptação para o Cinema dessa obra, que possui a continuação em mais dois livros: “O restaurante no fim do universo”, “A vida, o Universo e tudo mais” (já indicando uma trilogia). Desde 1982 essa história tentava ser feita para a tela grande, já que foi adaptado em vários tipos de mídia, entre elas uma série de TV, um jogo de computador e uma série de programas de rádio.

O filme começa com um péssimo dia na vida de Arthur Dent (Martin Freeman), após saber que sua casa será demolida para construção de uma estrada descobre que o melhor amigo, Ford Prefect (Mos Def), é na verdade um extraterrestre que viaja de planeta em planeta. O que ocorre com a casa de Dent é na verdade uma metáfora para o que acontecerá com a Terra alguns minutos depois. O planeta será destruído para que uma nova auto-estrada hiperespacial seja construída, demonstrando que a indiferença e intolerância só mudam a escala, mas continuam as mesmas. Arthur só tem uma saída: pegar carona em uma nave espacial que está de passagem. Ele começa então a percorrer o universo, sendo que tudo o que precisa saber sobre sua nova vida está contido em um valioso livro: o Guia do Mochileiro das Galáxias, o qual seu amigo Prefect é um dos redatores.

Esse filme chama atenção devido ao seu humor diferenciado, onde se percebe mais críticas do que o simples besteirol aplicadas a obras desse gênero, além de misturar questionamentos sobre a nossa existência, o que o faz ficar bem mais consistente e atrativo. Na abertura já notamos um tom sarcástico ao ouvirmos o narrador nos dizer que o homem não é o ser mais inteligente do planeta, e que o golfinho é o segundo mais inteligente, sendo que este último tentou a todo custo nos informar sobre a destruição da terra e nós interpretávamos isso como tentativas de rebater bolas ou pedir comida, ainda nos deixando a curiosidade de qual seria o ser que estaria em primeiro lugar em termos de inteligência. Assim os golfinhos partem pro espaço antes da destruição da terra, “nadando no ar” numa cena insólita com a lua ao fundo e uma música cujo refrão diz: “Até logo, e obrigado por todos os peixes”, em referência ao quarto livro de Douglas Adams, com o mesmo título. O que cativa, como o que aconteceu comigo, ou espanta os espectadores, como os sussurros de “não entendi nada” na fileira de trás da sala de cinema.

O Guia do Mochileiro das Galáxias possui personagens bizarros mas cada um tem sua função específica, não só na diegese como nas entrelinhas da história, os “Vogons” por exemplo, seres grandes, gordos e burocráticos, demonstram claramente uma crítica a situações às vezes aplicadas em nosso cotidiano, funcionando como verdadeiros pesos ou empecilhos ou a figura de “Zaphod Beeblebrox”, o presidente da Galáxia, interpretado com maestria por Sam Rockwell representando o vazio e a inconseqüência de algumas figuras que foram ou ainda são líderes mundiais. Há ainda o “Humma Kavula” (John Malkovich) em pequena aparição mas que marca sua presença, como um misto máquina/homem, ele é um líder religioso de uma seita pra lá de estranha onde podemos também notar uma brincadeira com religiões que surgem até hoje com propostas claramente surreais. Há também o “Marvin”(voz de Alan Rickman) e o “Pensador Profundo”(voz de Helen Mirren), o primeiro é um robô que possui um protótipo de personalidade maníaco-depressiva, e o segundo é um super computador(a sua figura é uma referência à estátua grega do pensador, só que com a cabeça bem maior, tendo assim que ser segurada com as duas mãos) com voz feminina e que nas horas vagas fica assistindo desenhos animados toscos. Verdadeira ironia de outros filmes, onde a máquina por possuir inteligência termina sendo a maior vilã da história.

Essas personagens nos atraem para os efeitos especiais do filme (Asylum Models & Effects, Cinesite Ltd., Jim Henson's Creature Shop, Shynola), com um certo ar “retrô”(como as cenas da viagem da nave, onde se transforma em vários objetos ou os monstros do planeta de Humma Kavula) misturado a efeitos mais modernos (a fábrica de planetas), nos remetendo as obras clássicas, como a série de filmes de “Monty Python”(efeitos bizarros), “Guerra nas Estrelas”(a faca laser que faz torradas na cozinha) ou até “2001”(quando a nave fica impossibilitada de ser usada e eles saem numa menor, vagando, desordenadamente pelo espaço). É importante ressaltar que essas características dos efeitos especiais só fazem contribuir para a história, diferentes de outras obras que às vezes se perdem em longas seqüências digitais.

Uma das coisas mais interessantes é o livro que dá nome ao filme, “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, uma espécie de dicionário digital, onde quase todas perguntas tem respostas. Todas elas são descritas através de animações simples criadas com desenhos em 2D que dão um charme especial, devido ao tom da explicação, totalmente informal, engraçadas e satíricas, além de conter impressa na contracapa em letras garrafais a frase: “Não entre em pânico!”. É importante salientar que a narração do filme (original por Stephen Fry) na versão brasileira é dublada por José Wilker, nota-se que devido à velocidade da narração foi escolhido esse recurso para evitar toneladas de legendas congestionando a tela, recurso que choca no início, mas depois de entendido é assimilado e passa despercebido. Assim a narrativa é feita a partir da narração comum em conjunto com as explicações contidas no Guia, que ajudam a completar a história. Fórmula que dá tão certo que ainda há espaço para paradas e divagações de uma baleia em plena queda livre.

A trilha sonora tem forte caráter na obra, diferente da fotografia que não remete a interpretações(Standard), ela tem bastante força e ajuda muito na construção e ambientação das cenas. Com músicas variadas a trilha está em todo o filme, desde o tema que nos apresenta o Arthur Dent, com marcas e compassos que nos remetem a um personagem atrapalhado, bobalhão e covarde até as portas da nave que sussurram toda vez que abrem e fecham.

Ao mesmo tempo em que o filme trata de questões filosóficas, como de onde realmente viemos ou qual o verdadeiro sentido da vida é também uma história de amor e transformação. A maior curva dramática está no personagem de Arthur que passa de um homem pacato do interior para um aventureiro hiper-espacial, sendo que o amor que ele sente por Trícia tem forte influencia nessa mudança. Demonstrado com sutileza pelo ator Martin Freeman.

Uma dica, não saia da sala antes do final dos créditos e prestem atenção nas imagens formadas pela nave enquanto viaja pelo espaço. Além dos diálogos sobre o “Restaurante no Fim do Universo”, revelando uma possível continuação.

sexta-feira, junho 24, 2005

Site do Núcleo Baiano Contra a Censura

www.censuranao.cjb.net,

segunda-feira, junho 13, 2005

Censura a filme de estudante baiano!!!


Foto de divulgação: O Fim do Homem Cordial

Cineastas pedem demissão de diretor da Dimas
Vítor Rocha, do A Tarde On Line

Em protesto desde o início da manhã desta segunda-feira (13), cerca de 50 manifestantes, em sua maioria profissionais do audiovisual baiano, ocuparam a sede da Diretoria de Artes Visuais e Multimeios (Dimas), nos Barris. Os cineastas e video-makers, representados pela Associação Baiana de Cinema e Vídeo (ABCV), pedem a demissão do diretor da Dimas, Jamison Pedra. Os manifestantes ocuparam o prédio com uma barraca de camping e invadiram a sala da diretoria da Dimas, órgão veiculado à Fundação Cultural, entidade submetida ao Governo do Estado. No meio da manhã, fizeram um panelaço e muita barulho com apitos e tambores.

O principal motivo do pedido de demissão é a proibição imposta pela Dimas à exibição do vídeo “O Fim do Homem Cordial”, de Daniel Lisboa, na Mostra Jovens Realizadores Baianos, que ocorreu nos dias 3, 4 e 5 deste mês, na sala Alexandre Robatto. A ABCV e os organizadores da mostra vão entrar com uma ação judicial contra a Dimas para que o filme seja exibido na mesma sala e o mesmo número de vezes que estava programado na Mostra. "A Dimas violou o artigo 5º da Constituição Federal quando censurou o filme. Vamos entrar com uma ação para que ele seja exibido as mesmas três vezes que seria na mostra", disse o advogado Emerson Cabral, que vai representar a associação e os organizadores.

A ABCV reivindica ainda que o "vídeo proibido da Bahia" – como foi apelidado nos eventos nacionais, a exemplo do Festival de Ceará, ocorrido na semana passada –, entre na programação da TVE e seja exibido antes dos longas metragens na sala Walter da Silveira. "No ano anterior todos os filmes selecionados no Festival 5 Minutos passavam na TVE e na sala Walter. Esse ano, só por causa desse filme, eles não fizeram isso. O tempo da censura já passou", bradou Jorge Alfredo Guimarães, cineasta baiano.

A associação elaborou uma carta, lida durante o ato público pela manhã e referendada pelos manisfestantes, e começou a coletar assinaturas para um abaixo assinado, que será entregue anexado à carta ao governador Paulo Souto. Durante todo o dia o diretor Jamison Pedra não apareceu na Dimas, mesmo com a cobrança dos manifestantes de dialogar com algum representante do órgão. A ABCV afirma que “as coisas mudaram e o diálogo se encerrou bruscamente”, desde que a Jamison Pedra assumiu a Dimas. “Hoje o cinema da Bahia não se vê representado em seu mais importante órgão dentro do governo”, acrescenta a carta.

POLÍCIA – No início da tarde, o fornecimento de energia foi interrompido na Galeria Pierre Verger, que fica na entrada do recinto onde os manifestantes projetavam diversos filmes na parede e acompanhavam tudo sentados. As luzes internas do prédio continuavam acesas. Os manifestantes então tentaram ocupar a sala Alexandre Robatto, mas foram impedidos pela segurança e pelas portas trancadas. Por volta das 14h, sete viaturas da Polícia Militar apareceram em frente ao prédio da Biblioteca Pública e alguns policiais entraram no prédio da Dimas, sem confusão.

Com a energia cortada, os manifestantes recorreram a uma bateria e um gerador de energia a diesel para que o filme não deixasse de ser exibido. Eles passaram a usar um aparelho de TV de 14 polegadas com o auxílio do aparelho de DVD. O vídeo "O Fim do Homem Cordial" foi apresentado duas vezes, com aplausos e ovações dos manifestantes e de estudantes que se uniram ao grupo.

Quando a terceira exibição ia começar, o tenente-coronel Amâncio desligou os aparelhos sob a alegação de que aquele não era local correto para projeção. Ele afirmou que a solicitação teria partido da diretoria da Dimas e que a sala correta seria a do lado, exatamente a Alexandre Robatto.

Os manifestantes então pediam que o filme passasse no local adequado, mas ele estava fechado. Por cerca de 40 minutos o policial ficou diante dos equipamentos desligados, impedindo que os manifestantes retomassem a exibição.

TENSÃO - Esse foi o momento de maior tensão. Os manifestantes reclamaram e falaram com veemência contra o policial, que se manteve impassível. O Hino Nacional foi cantado, assim como fragmentos da música "Polícia", dos Titãs: "polícia, para quem precisa, polícia para quem precisa de polícia...". Um dos mais exaltados era o cineasta Edgard Navarro, que tentou a todo custo incitar uma reação do policial. "Eu vou tirar você do sério, coronel. Exu vai incorporar no seu corpo e você vai tirar esse sorrisinho do rosto", bradava Navarro em alto som a poucos centímetros da face do tenente-coronel Amâncio. Já no início da noite e mais calmo, Navarro disse que estava protegido por alguma força mágica e que agiu de maneira delirante e não mediu o perigo da situação.

Os ânimos só se acalmaram quando, após uma conversa ao telefone celular, o policial permitiu que o filme voltasse a ser apresentado. "A diretoria deu a orientação de que não poderia exibir o filme porque ali (Galeria Pierre Verger) não é sala de projeção. Desligamos o equipamento mas, como ela (a diretoria) não se fez presente, permitimos novamente a exibição". Os vídeos voltaram a ser mostrados ao público e a polícia se manteve do lado de fora da sede do órgão, que fica anexo à Biblioteca Pública, nos Barris.

O movimento dos cineastas e vídeo-makers contava claramente com duas gerações diferentes. Uma formada pelos mais experientes, como José Araripe Júnior, presidente da ABCV, e Jorge Alfredo, cineasta, e outra geração mais nova, com Daniel e Diego Lisboa, Ângelo Flávio, ator. Os mais novos se mostravam mais exaltados e aguerridos, enquanto os mais experientes procuravam não exceder os ânimos. Ao longo da tarde, a direção da ABCV, Araripe e Alfredo, se reuniram três vezes com a procuradora chefe da Fundação Cultural, Celeste Maria Sambrano Bezerra. Ela solicitou que a manifestação fosse dissipada, mas Araripe argumentou que não poderia acatar a solicitação, pois estavam fazendo reivindicações e não tinham recebido nenhuma resposta.

A reportagem tentou contato com a coordenação da Dimas. Um homem que se identificou como Paulo Roberto, prestador de serviços ao órgão, informou que a interrupção no fornecimento da energia ocorreu por problemas técnicos. "Não foi por causa do filme, mas um problema interno, por causa da própria energia", disse.

Durante a tarde, a Associação Baiana de Cinema e Vídeo (ABCV) entrou em contato com Juca Ferreira, secretário-executivo do Ministério da Cultura, para que o ministro Gilberto Gil intermedeie uma conversa entre uma comitiva de cineastas e o governador, Paulo Souto. A intenção é discutir o assunto e passar as reivindicações do movimento e pedir a cabeça do diretor da Dimas, Jamison Pedra.

O diretor do filme é estudante de Comunicação Social, com habilitação em cinema, da única escola do N/NE.

quarta-feira, junho 08, 2005

Embriagado de Amor, de Paul Thomas Anderson

Análise:
Punch-drunk love - EUA - 2002

Encontro do vermelho com o Azul, rodeado de flashs coloridos

“Eu não gosto de mim às vezes”, essa é uma das frases de Barry Egan, protagonista de Embriagado de Amor (Punch-drunk love), de Paul Thomas Anderson. Definido como uma “comédia romântica”, o filme é muito mais que isso, já que traz experimentações estéticas e psicológicas que extrapolam facilmente os limites desse tipo de classificação. A não rotulação seria uma das melhores opções para essa obra, um misto de várias nuanças, humor, drama, suspense e mistério.

O início do filme é uma apresentação do protagonista, em seu mundo, isolado e distante dos outros. Na primeira cena, vemos Barry sentado na mesa de seu escritório, um galpão, de onde tenta dirigir seu negócio, uma loja de desentupidores de pia. Ao mesmo tempo que tenta ganhar milhas aéreas de uma promoção em potes de pudim. A fotografia é marcante e de composição admirável, a parede, em duas cores, emoldura o personagem e o uso da perspectiva através das linhas que dividem as cores reforça nossa atenção, além de criar profundidade. O plano utilizado nessa cena é muito mais aberto do que o necessário, mostrando espaços vazios, denotando a idéia de isolamento em que Barry se encontra.

Durante um período do filme, somente vemos Barry e coisas que ele observa. Ele chega mais cedo que os demais em sua loja, mas não para organizá-la, e sim para descobrir um modo de poder sair daquele lugar, como se ele nunca estivesse satisfeito com o que faz e quisesse ir pra bem longe. Na verdade ele não está satisfeito consigo mesmo, como afirma na frase citada no primeiro parágrafo. A calmaria do amanhecer é mostrada no filme, Barry aparece em planos abertos, demonstrando claramente o sentido de solidão. Também observamos como essa calma e solidão podem ser transformadas em tensão e ansiedade, acompanhando acontecimentos através de seu ponto de vista: um grave acidente de automóvel, com o carro capotando várias vezes, logo após um carro de entrega freando bruscamente e deixando um pequeno piano sobre a calçada sem nenhum endereçamento. É o mundo de Barry Egan, onde as coisas não tem muitas razões para acontecer, simplesmente acontecem.

Uma ação se repete no filme, a saída de Barry do seu escritório para olhar a rua. Os planos são rodados da mesma maneira, só que com outra iluminação, nos passando a idéia de um sonho, como se a primeira ação não tivesse existido. Mas na verdade é a demonstração da rotina em que Barry se encontra, que logo após é quebrada com a chegada de uma estranha mulher, posteriormente identificada como Lena Leonard(Emily Watson), que será seu “par romântico”. Dessa vez, diferente da primeira cena, a luz vaza pela lente da camera propositadamente, marcando a tela com um facho colorido(flare), que irá se repetir várias vezes durante o filme, a camera a segue como havia seguido Barry até a saída da loja, vemos estilhaços de vidro no asfalto da rua e o piano na calçada, reforçando a posteridade dos acontecimentos.

O filme é bastante azulado, sendo que o vermelho é inserido algumas vezes. É como a vida que o personagem leva, triste e solitária(Azul) que é cortada por uma paixão arrebatadora (vermelho). Quando o protagonista passa por fatos que te tocam, a luz vaza na lente da camera manchando a imagem. Isso é bem demarcado no filme, principalmente nos momentos que Barry está com Lena.

A montagem do filme mostra momentos calmos justapostos com momentos de ação exacerbada, transferindo o nervosismo do protagonista para os espectadores, como na cena em que ele está olhando o piano calmamente na calçada e passa um caminhão em alta velocidade bastante próximo, o som do caminhão somente é inserido quando ele já está na tela, e não desde a sua aproximação, é como se o protagonista estivesse num transe e não observasse cuidadosamente as coisas ao seu redor, e nós entrássemos e saíssemos juntos com ele nessa “viagem”.

A trilha sonora é inserida cuidadosamente quando Barry está mexendo no piano e começa a tocá-lo, a partir daí acompanhará o protagonista até o final do filme, principalmente quando passa por momentos de stress e nervosismo. Ela tem uma função de nos inserir na diegese, já que em alguns momentos incomoda, nos deixando também nervosos e inquietos.

Um fato bastante interessante, é que num dado momento do filme, que parecia reservado para os créditos iniciais, aparecem imagens coloridas, como pinturas e fachos de luz. Imagens abstratas e brilhantes, acompanhadas de uma trilha sonora fantasiosa, como se nos dissesse que uma fábula está para começar.

Barry é uma pessoa com características estranhas, com tiques e tremedeiras, sua ansiedade nos passa a impressão que está sendo perseguido, sempre se assustando com facilidade. Seu figurino também realça isso, já que ele aparece quase sempre com um paletó(Azul), para estranhamento dos outros personagens, já que no seu trabalho não necessitaria desse tipo de roupa. Ele nos passa uma sensação de sempre estar pronto para algo, mesmo quando não precisa(inseguro, indeciso). Veremos depois que essas características são o resultado de sua criação, dominado por sete irmãs que o zombam desde a infância, ele é um ser atormentado, que não consegue se expressar adequadamente e que perde o controle com facilidade.

Devido a uma dificuldade em se relacionar com outras pessoas, Barry faz uma ligação para um “disque-sexo” e conversa durante um longo período com uma atendente. Esta cena é muito bem filmada em vários planos seqüências, de maneira que acompanhamos sem cortes todo o processo da conversa. Além de um belo trabalho de interpretação de Adam Sandler, que nos passa a impressão de aguardar um verdadeiro encontro no lugar de um encontro virtual, se preparando para a conversa, fechando as persianas, caminhando nervoso de um lado para outro. A movimentação de camera reforça isso, já que várias vezes vemos Barry(Sandler) enquadrado e logo depois esse enquadramento é “corrigido”, mostrando ele sentado com o telefone em uma cadeira e outra cadeira vazia do lado oposto da mesa, trazendo assim o que está fora(talk-girl) para dentro da tela. As irmãs sempre tentam fazer com que alguém se aproxime dele, e é dessa forma que Barry começa a se envolver com Lena, colega de trabalho de Rhonda, uma de suas irmãs. Emily Watson, que está muito bem no papel, sempre com vestidos vermelhos ou em cores quentes, falando pouco e com uma voz suave, demonstrando a timidez e a calma de sua personagem. Assim Lena se transforma numa luz no fim do túnel para Barry, uma esperança onde não havia nada. Quando Barry vai ao seu encontro no Hawaí, surgem elementos que frisam isso, como as roupas vermelhas das atendentes no aeroporto em contraste com as cores azuladas do resto da cena, a lâmpada bastante forte no fim do entroncamento entre o aeroporto e o avião e ele caminhando em slow ao em sua direção, e a luz que se acende na cabine de telefone público quando ele consegue falar com ela, todas essas cenas acompanhadas do refrão "Pela primeira vez na vida/ Eu finalmente senti/ Que alguém precisava de mim" da música "He Needs Me", referência ao filme "Popeye" de Robert Altman e se encaixando perfeitamente no contexto, já que passa a idéia de um amor inocente, puro. É como se tudo se tornasse mágico quando ele estivesse ao lado dela.

Se observamos com cuidado nota-se que até a cor gravata de Barry é usada para indicar suas emoções durante o filme, o que pode passar despercebido ou parecer um erro de continuidade se olhado sem a devida atenção. As cores variam entre o vermelho( no início, antes de conhecer Lena, mas já indicando para uma paixão que irá surgir), amarelo(quando está no avião, indicando seu nervosismo, atenção) e branco (Quando encontra Lena no Hawaí, também de Branco).

No momento de encontro entre Barry e Lena há uma ação que aparece duas vezes, é a chegada de Lena. Ela aparece para nós, espectadores, e logo após, aparece novamente, mais de perto, para Barry, reforçando sua chegada. Há uma quebra do clichê de encontros românticos onde os personagens estão isolados, num lugar deserto. Quando eles se encontram, aparecem várias pessoas caminhando de um lado para o outro, entre eles. Existe a beleza da cena (somente observamos as silhuetas das pessoas) mas algo é diferente das cenas usuais de encontros românticos (eles não estão sozinhos).

O filme é construído a partir de detalhes e como esses detalhes são filmados. É uma obra cinematográfica sobre solitários e apaixonados vistos de muito perto, demonstrando as loucuras de cada um. É um filme do encontro do vermelho com o Azul, rodeado de flashs coloridos.


Trecho de diálogo do filme:

Barry
“Estou olhando seu rosto e tenho vontade de amassá-lo.
Quero amassá-lo com um martelo e esmagá-lo,
você é tão linda”

Lena
“Seu rosto é tão lindo...
Quero mastigá-lo, arrancar seus olhos e...
Quero comê-los, mastigá-los e chupá-los”

Quem

Cesar Fernando de Oliveira

Mais um astronauta no Chipre

My profile

Sobre

Cinema e palavras vagando na rede...

últimos posts

Google
 
Web URL DO SEU SITE
online